Explorando a Cultura do Ego nas Redes Sociais e Além

“Quando Narciso morreu, o lago de seu prazer mudou de uma taça de águas doces para uma taça de lágrimas salgadas, e as Oréades vieram chorando pela mata com a esperança de cantar e dar conforto ao lago. E quando elas viram que o lago havia mudado de uma taça de águas doces para uma taça de lágrimas salgadas, elas soltaram as verdes tranças de seus cabelos e clamaram: ‘Nós entendemos você chorar assim por Narciso, tão belo ele era.’ ‘E Narciso era belo?’ disse o lago. ‘Quem pode sabê-lo melhor que você?’ responderam as Oréades. ‘Por nós ele mal passava, mas em você ele se procurava e deitava em suas margens e olhava para você, e no espelho de suas águas ele refletia sua própria beleza.’ E o lago respondeu: ‘Mas eu amava Narciso porque, quando ele deitava em minhas margens e olhava para mim, no espelho de seus olhos eu via minha própria beleza refletida.’
Oscar Wilde 

A Busca Infinita por Aprovação

Este poema em prosa escrito por Oscar Wilde não é uma simples continuação do mito de Narciso, é uma descrição da relação entre indivíduos narcisistas tão comumente vista na história humana, agora reforçada e ampliada com o surgimento do que chamo de ‘narciso virtual’. Narcisistas sempre existiram, e provavelmente sempre existirão. Imperadores romanos com suas estátuas romantizadas, altivas para serem vistos como deuses intocáveis. Na história retratada em livros cristãos, conta-se sobre Salomé que, ao dançar para a plateia entorpecida do Rei Herodes, se vendeu para os desejos de quem tentava agradar, escrava de quem desejava encantar.

Acho que todos conhecem Narciso, não é? Apaixonado por sua própria imagem seminua, se estivesse vivo hoje, aproveitar-se-ia da hipersexualização típica moderna. Nada mais faria de sua vida senão contemplar os likes no Instagram, até nele mergulhar e morrer.

O lago que amava Narciso somente por poder se ver nos seus olhos, como expõe bem Oscar Wilde, simboliza uma relação afetiva narcísica onde você só se vê nos olhos do outro, onde você é o centro da relação, o dominador ou dominatrix, onde apenas seus prazeres devem ser satisfeitos, como observa bem Bukowski: ‘Morto fodendo morto’, onde se cria um relacionamento raso, apelidado de ‘casual’ ultimamente pelos decadentes. Basta virar a esquina, entrar numa balada, apertar um botão em um aplicativo ou olhar no espelho e verá um morto cheio de tesão por si mesmo.

Narciso se agarra ao seu reflexo visto no lago, como se fosse um espelho; os narcisos virtuais se agarram aos seus reflexos em seus espelhos negros (Black Mirror), nas telas de seus aparelhos. O que existe é uma fragilidade do ego; então, o sujeito faz de tudo para demonstrar o oposto: grandiosidade, porque é com a aprovação do outro que este sujeito ameniza sua insegurança. As redes sociais, então, podem amplificar a cultura do narcisismo, devido à grande exibição e exposição de suas falsas imagens na internet. ‘A vida é uma etapa e, quando a cortina cai sobre um ato, é finalizada e esquecida. O vazio de uma vida assim está além da imaginação.’ — Alexander Lowen descrevendo a existência de um narcisista.

O narcisismo tem o seu nome derivado de Narciso e ambos derivam da palavra grega narke (‘entorpecido’), de onde também vem a palavra narcótico. Sim, presenciamos hoje o surgimento de uma nova espécie, os drogados virtuais. Assim, para os gregos, Narciso simbolizava a vaidade e a insensibilidade, visto que ele era emocionalmente entorpecido às solicitações daqueles que se apaixonaram pela sua beleza. E para nós, modernos, simboliza fama, influência, adoração por uma massa de tolos que não consegue enxergar que seus ídolos narcisistas são apenas sombras na parede de uma brasa pequena refletindo um rato leproso. Se me perguntasse qual seria o Deus moderno mais adorado, diria sem pensar que é Narciso, cultuado a cada postagem de foto fútil no status, a cada foto seminua por likes, a cada militância em postagens alheias, a cada vídeo sem conteúdo postado por views, sedentos para serem notados e aplaudidos como uma criança esperando a aprovação de sua mãe.

No final de seu mito, Narciso morre à beira do lago em que se entorpecia; em algumas versões, se mata por não poder se apropriar daquele homem belo que via no reflexo. Isso lhe soa familiar? Por fim, da morte de Narciso e seu corpo outrora lindo e desejado, encontrado em decomposição, nasce então a flor narciso, encontrada nas beiras de lagos. De suas raízes podres, se puxadas, podemos ver nossos rostos; nossa geração enraizada na podridão da raiz do falso eu, da falsa imagem. Já checou sua caixa de notificações de sua rede social hoje? Já fez sua adoração matinal quando acorda e abre as redes sociais? Já fez o sacrifício de si mesmo ao seu deus sagrado, tu mesmo?”

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