Revelando a Profundidade do Nome Divino e o Simbolismo Católico

Ensina São João Damasceno:

“Aquele que não tem nome tomou o nome de todos os seres para mostrar que está acima de tudo, que é tudo em todos e, seguindo as palavras de São Paulo, que contém e aperfeiçoa toda a criação.” [1]

Este que não tem nome é Deus, obviamente. Porém, como pode-se dizer que em Deus tudo há e tem todos os nomes de todas as coisas, além de todos os seus nomes sagrados, se ele “não tem nome”? A distinção essencial aqui é simples: o nome de Deus não é compreendido por
nenhuma capacidade humana, seja percepção, imaginação, conjectura, nome, discurso, apreensão ou compreensão [2], e “vem de longe, ardendo a sua ira” (Is 30, 27). 

O nome de Deus é contido em sua Divinitas (Uno, origem de todas as processões intra divinas, i.e.,bullitio), e sua verdadeira pregação é dupla.
Primeiramente, prega-se o nome de Deus ao abandonar os nomes (1Co 2, 4), revestindo-se de imortalidade (1Co 15, 53) e tornando-se filho da manifestação de Cristo (Lc 20, 30); tal manifestação kenótica realizada no sacrifício da Cruz é a quebra da barreira entre o homem e Deus, mantendo sua absoluta transcendência sobre o mundo.

comenta Jean Daniélou S.J.:

“Nesta visão, Cristo restaura a unidade em um sentido duplo. Ele destrói tanto a parede vertical que separa os dois povos, quanto a parede horizontal que separa o homem de Deus; e ele o faz pela Cruz, que agora parece representar o duplo operação de Cristo estendendo-se vertical e
horizontalmente para formar uma cruz. Há também, em certo sentido, duas cruzes: a cruz da separação que existia antes da vinda de Cristo, e a cruz da unificação que é a vinda de Cristo.” [3]

A partir dessa primeira pregação, desenvolve-se a segunda forma da pregação do nome divino, que é a pregação do nome de Cristo, que denota em si a absoluta perfeição de Deus, como pretendo demonstrar. Primeiramente, Cristo é “O ícone do Deus invisível” (Cl 1, 15) e, se ele é
ícone do invisível, ele é logicamente ícone do nome do Senhor, que é desconhecido. Denoto também que Cristo é a Sabedoria do Pai (1Co 1, 24; 2, 7), e tal Sabedoria é igualmente o Espírito Santo (Is 11, 2); a partir de tal denotação, mostro a Unidade acima da dualidade entre o esquecer dos nomes — primeira maneira de pregar os nomes divinos — e o nome de Cristo, segunda maneira, ícone do Pai.

Dizemos que o nome de Cristo é necessário para a realização máxima do amor trinitário, como ensinam as Escrituras: “E no último dia, o grande dia da festa, Jesus pôs-se em pé e clamou, dizendo: Se alguém tem sede, venha a mim, e beba. Quem crê em mim, como diz a Escritura, rios de água viva correrão do seu ventre. E isto disse ele do Espírito que haviam de receber os que nele cressem; porque o Espírito Santo ainda não fora dado, por ainda Jesus não ter sido glorificado” (Jo 7, 37–39). As águas vivas são exatamente o símbolo da não-dualidade expressano Espírito Santo. Ergo, o Espírito Santo é quem desvela o Pai ao Filho e vice-versa —Spiritus est, qui revelat mysteria — por meio de seu aspecto de πνεῦμα (pneūma). A não dualidade fica expressa através da dinâmica processiva (em relação ao Verbo). Nesse sentido, o Espírito que é “água viva” é a água que derrama no sacrifício de Cristo (Jo 19, 34). E, ao mesmo tempo, o Espírito Santo é o ‘rûaḥ ʼĚlôhîym’ de Genesis 1, 2 que exprime a Luz nas águas (Caos primordial), e portanto o “fogo pentecostal”, indicado também na Manifestação do Espírito Santo em Pentecostes. [4].
O Apóstolo ensina que “em nada difere do escravo, ainda que seja senhor de tudo” (Gl 4, 1).

Ora, a glorificação do Verbo pela sua ‘redução’ à forma criatural, não apenas criatural, mas a uma forma que deveria conter em si o pecado e entretanto, está totalmente imaculada da maldição de Adão, é essencial para se entender o Sagrado Nome de Nosso Senhor Jesus Cristo (ver também Fp 2, 7 e Is 53, 4-5).

Se, então, você é tentado a confundir este Menino com algo diferente de Ele, porque ele está escondido em um estábulo, olhe para a estrela no céu que mostra o que Ele é para o mundo. Se, por outro lado, você deseja se juntar aos anjos para oferecer a Ele sua adoração e adoração,
considere as fraldas nas quais Ele está envolto. Da mesma maneira, quando você vir hoje esta criança sendo circuncidada, reconheça nele um descendente de Abraão; quando você ouvir que Ele recebeu o Nome de Jesus, que é parte da sua confissão de fé, reconheça nele o verdadeiro Filho de Deus [5].

Nas Escrituras, uma passagem em específico chama atenção:

“Havendo, pois, o Senhor Deus formado da terra todo o animal do campo, e toda a ave dos céus, os trouxe a Adão, para este ver como lhes chamaria; e tudo o que Adão chamou a toda a alma vivente, isso foi o seu nome.” (Gn 2, 19).

Ora, como já foi dito no começo do texto, a partir dos ensinamentos de São João Damasceno, Deus que não tem nome algum tomou todos os nomes para Si.

E se é correto, como ensina Francisco Suárez, S. J., resumindo o pensamento dos pais e escolásticos, que os antigos hebreus eram ‘cristãos’ e que nossa religião é do começo do mundo [6], Adão era um cristão nomeando a tudo na terra, e esses nomes que são, na realidade, do Senhor, são igualmente de Cristo; ergo, que na realidade, no começo do mundo, Adão nomeia as coisas e animais para que, independente de seu pecado que ainda viria a acontecer, o Verbo que “é antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem por ele” (Cl 1, 17) pudesse, como ensina São Paulo, agir “em todas as coisas para o bem daqueles que o amam” (Rm 8, 28). A pureza em que o Pai criou a alma, nós atingimos através da sabedoria, que é o Filho, pois, como eu disse antes, ele é uma porta através da qual a alma retorna ao Pai, pois tudo o que Deus criou não passa de uma imagem e um sinal da vida eterna. [7]

Notas:

[1] Exposição Exata da Fé Ortodoxa, livro I, cap. 15
[2] São Dionisio Aregiopata, Dos Nomes Divinos, cap. 1
[3] Jean Daniélou, The Theology of Jewish Christianity, cap. 9, pag. 280.
[4] Nesta parte do texto em específico, recomendo a leitura do livro “L’Esprit Saint, la Trinité et l’Immaculée Conception” de Jean Borella, de onde retirei a maior parte das referências escriturais.
[5] Papa Leão I, Sermão 33, cap. 3
[6] De Fide, II.6: “É preciso sustentar que a lei na substância dos dogmas sempre foi a mesma, desde a origem da raça humana até nossos dias. Assim ensine Sto. Tomas (Sec. Sec. II.7), Hugo de Saint-Victor (De Sacram. IX4), o Magister das Sentenças (3 dist. 25), e todos os comentadores: Boaventura, Alberto, Scotus, Durandus, Richard, Alexandre de Hales, dos quais podemos constatar que a fé de Cristo sempre foi necessária para a salvação … Tal era também o ensinamento dos Padres, como se encontra em Santo Irineu (IV.13) e Eusébio (Hist. I.IV), que diz que todos os fiéis, desde a fundação do mundo, poderiam ser chamados de cristãos”. [7] Mestre Eckhart, Sermos Místicos, Sermão 46 [Pf 46, Q 54b]

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Instagram